Sobre não ter terminado a Uphill

Sobre não ter terminado a Uphill

setembro 3, 2018 5 Por nucleosalutem

Para contar sobre a prova, preciso falar sobre os 9 meses que antecederam ela pois o evento em si foi só um pedaço de todo um plano que começou em dezembro após ser sorteado. Sim, para participar é necessário entrar em um sorteio, não basta se inscrever. De certa forma, deve-se ter alguma sorte.

Fiz diversas provas com o objetivo de ganhar mais força, cardio e experiência e olhando para trás não mudaria uma vírgula de tudo que foi programado, pelo contrário, faria tudo de novo. Então, o que aconteceu? Por que faltou perna? Por que travou tudo? Ah… hidratação, suplementação, descanso pré prova, foi tudo perfeito! Fiz o que devia ter sido feito!

Bom, simplesmente tinha que ser assim.

uphillA corrida foi excelente, me diverti muito e corri pela percepção de esforço (como um amigo sugeriu), nada de ficar se cobrando e olhando o relógio o tempo todo, tanto é que desliguei o alerta sonoro para não apitar a cada km. Foi uma delícia correr pelas estradas do Sul, passando por vilarejos com poucas casinhas, mas todas tão lindas que pareciam saídas de um filme. Os primeiros quilômetros foram bem tranquilos, bem tranquilos mesmo! Tanto é que andei em pontos de hidratação para beber água e isotônico com tranquilidade e até para o número 1, coisa que nunca acontece em prova. Passei pelo pórtico de corte com 59 minutos de folga e fechei 32km com 2h40 sobrando. Aí começou a subir, ritmo mais leve, passeio, aquele famoso trote paquera, quando inclinou mais já estava alternando corrida e caminhada conversando com os postes. As pernas já estavam pesando, mas sem câimbras, que só começaram no km 38 ou 39, na coxa.  Nessa hora começaram alguns espasmos mas continuei andando, sem alternar com trote mas andando firme até que por volta do 41 (meu relógio daria 43 km de prova) travou tudo e caí no chão com as duas pernas travadas.

Nunca senti tanta dor.

Fui acudido pelo apoio médico de moto, a enfermeira massageou com gelol mas não adiantava… depois de uns 10 min de atendimento eu já tremia mais que vara verde (rs), eram sinais claros de hipotermia, já chovia e fazia frio há horas e deitado no chão o resultado não poderia ser outro. Mesmo ganhando uma blusa branca de alguém (parece que foi emprestada por alguém que passou correndo e deixou comigo) não resolveu, era muito frio. Infelizmente não consegui agradecer o gesto, mas é algo que ficou marcado.

Eu já havia pausado meu relógio uns minutos depois de estar no chão, sabia que a prova tinha acabado para mim e não sei quanto tempo depois alguém decidiu chamar a ambulância que não demorou e logo me colocaram deitado na maca. A dor ao tentar levantar sozinho era insuportável, em todas as tentativas as pernas travavam de um jeito que nunca senti.

A decisão de voltar para a prova ou não, na verdade, foi até muito simples. Tenho para mim que se não estou em condições ótimas não vou me arrastar, nunca fui assim e não seria dessa vez. Sou totalmente contra a superação a todo custo e se arrastar por mais 1,5km, chegar todo travado e torto, não faz parte de mim. Sempre digo a todos da importância de se terminar uma prova se sentindo bem, inteiro, curtindo, que exemplo eu estaria dando fazendo exatamente o contrário do que digo e ainda mais do que acredito que a corrida deva ser?

É claro que estou com o orgulho ferido! Treinei pra caramba, me dediquei e não terminei? Dói, vai doer por algum tempo mas faz parte da vida e nem sempre tudo funciona como queremos, na corrida não seria diferente. Mas prefiro olhar o copo “meio cheio”, afinal, corri 41km e isso não é pouco!

1467815Tenho a obrigação de deixar meu muito obrigado a cada mensagem (foram muitas!) pós prova que recebi, como um amigo meu me disse “as boas vibrações são sempre mais fortes que as más” e amiguinhos, essas vibrações chegaram! Obrigado! E claro, não posso deixar de citar minha companheira que estava lá com paciência para me acalmar, me ouvir e me dar mais apoio do que eu jamais imaginei que teria.

Bom… agora é descanso para as pernas e seguir em frente porque outros desafios virão!

Corrida é para sempre.

Emidio Peres
Personal e Idealizador do Núcleo Salutem
Formado em Educação Física, pós graduado em gestão de marketing, reabilitação cardíaca, reabilitação de lesões musculoesqueléticas e pós graduando em fisiologia do exercício.